Introdução à história da Capoeira: Regional e Angola

Na sociedade moderna é praticamente impossível para a maioria dos capoeiristas praticarem a sua arte-luta como faziam os jogadores de capoeira do século passado e no início deste, aprendendo-a de maneira informal no contato com os mestres nas rodas no dia-a-dia. Atualmente existem restrições de tempo, atividades profissionais e outras necessidades da vida moderna. Essas características impõem ao professor ou mestre de capoeira o conhecimento para aproveitar bem o tempo de que dispõe para o ensino da capoeira, organizando-se e utilizando métodos de ensino eficazes.

Mestre Bimba, já antes dos anos trinta, percebeu que era necessário que a capoeira sofresse algumas modificações para que pudesse se expandir e conquistar definitivamente o seu lugar no meio esportivo e educacional brasileiro. Um fato importante no surgimento da Capoeira Regional foi o contato de Mestre Bimba com estudantes que iam para Salvador freqüentar as boas universidades que já existiam na Bahia naquela época.

O mestre teria sido procurado por um grupo de estudantes universitários interessados em praticar a capoeira. À época, trabalhava como carvoeiro e estivador, e foi levado pelos estudantes para ensinar a luta numa pensão. Ao mesmo tempo em que estavam interessados em aprender com Mestre Bimba a luta que o havia tornado famoso, os estudantes universitários despertaram no criador da Regional a preocupação em organizar seu conhecimento, para torná-lo mais acessível aos alunos que se iniciavam na luta brasileira.

Assim, por volta de 1930, Mestre Bimba criou o primeiro método de ensino da capoeira, as "seqüências de ensino", que ainda hoje são extremamente importante para o conhecimento dos principais movimentos da capoeira. As informações disponíveis sobre a Regional permitem supor que Bimba tenha sido influenciado pelos métodos de treinamento militar durante a fase em que ministrou aulas no quartel do CPOR, como veremos sobre os cursos e as "emboscadas" que organizava para treinar seus alunos para combates reais.

Capoeira Angola

Há uma grande controvérsia em torno da Capoeira Angola, o que faz com que este seja um dos mais difíceis, senão o mais difícil tema para se discutir na capoeira. Muitos capoeiristas acreditam que a Angola é simplesmente uma capoeira jogada mais lentamente, menos agressiva e com golpes mais baixos, com maior utilização do apoio das mãos no chão. Outros explicam que ela contém o que há de essencial da filosofia da capoeira. Há ainda aqueles que, mais radicais, chegam a afirmar que a Capoeira Angola foi completamente superada na história dessa arte-luta pelas técnicas mais modernas, que seriam mais eficientes e adequadas aos tempos atuais, dizendo que é mero saudosismo querer recuperar as tradições da Angola.

Para que se possa compreender a questão, algumas perguntas devem ser respondidas: A Angola é um "estilo" de capoeira, da mesma forma que há vários estilos de karatê, com técnicas bastante distintas entre si? Todo capoeirista deve optar entre ser um "angoleiro" ou um praticante da Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba por volta de 1930? Seria possível jogar a Capoeira Angola de maneira idêntica àquela jogada pelos velhos mestres, que tiveram o seu auge no começo deste século? E, ainda: é possível, nos dias de hoje, traçar uma rigorosa separação entre as principais escolas da capoeira, Angola e Regional?

De uma maneira geral, a Angola é entendida como a capoeira antiga, anterior à criação da Capoeira Regional. Dessa forma, a distinção Angola/Regional é muitas vezes entendida como uma separação nestes termos: capoeira "antiga"/capoeira "moderna". No entanto, a questão não é tão simples assim, uma vez que não houve simplesmente uma superação da Angola pela Regional. Além disso, defender hoje em dia a prática da Capoeira Angola não é apenas querer voltar ao passado, mas buscar na capoeira uma visão de mundo que questionou, desde o princípio, o conceito de eficiência.

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